segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Surfista de trem

"Peguei uma onda maneira
dei Cutback, hang five, hang ten
eu sou o melhor surfista da minha rua
não tenho saco pra escola
as minhas notas sempre são vermelhas
mas eu não tô nem aí
arrumo as malas e me mando pro Hawaii"

Pop Star - Lulu Santos

Valorização do risco. Nos dias atuais é cada vez mais comum ouvirmos esta expressão.
A busca pelo reconhecimento, a excitação pela aventura bem poderiam explicar algumas das atitudes ordálicas tomadas por jovens, na maioria das vezes, em busca de algo que poderíamos nomear como reconhecimento.

"Se cair e sobreviver, vai tentar se salvar. Agora se cair e morrer, vai ficar lá mesmo"
Depoimento de um jovem surfista de trem no Rio de Janeiro.

Qual o valor da vida para essas pessoas? Qual o valor do reconhecimento? A que custo estes jovens se arriscam, e em busca de que? Será mesmo de reconhecimento?

A busca por reconhecimento, por algo que faça a vida valer a pena pode justificar estas atitudes?
O jogo com o perigo muitas vezes é encarado de forma superficial, e acreditamos que atitudes assim não tenham nenhum fundamento, talvez não tenham de fato, mas são atitudes como estas que colocam nossa sociedade em check, e nos fazem questionar as condições que a contemporaneidade tem nos imposto.

Tanto falamos da busca por um OUTRO que nos ampara e protege do isolamento e da solidão, que encontramos atitudes ordálicas, que vão além do gosto pelas drogas, chegam a atos que colocam em risco a vida do sujeito e de outros indivíduos.

O surfe ferroviário foi uma prática muito comum no início da década de 1990, mas que até hoje deixa marcas a serem estudadas e analisadas criticamente. Muito mais do que uma simples "diversão", para esses jovens, surfar sobre o trem representa algo maior, representa a busca por um OUTRO que os faz esquecer completamente da realidade em que vivem.

"O trem corre no trilho da Central do Brasil.
[...]
Deu no New York Times
Fernando, o belo, não sabe se vai participar
Do próximo campeonato de surf ferroviário
Surfista de trem, surfista de trem"

W/Brasil - Jorge Ben Jor

Análises são feitas. Estudos são realizados. Jovens surfam no trem. Jovens se divertem, se arriscam. Jovens morrem. A troco de quê? Em busca de quê?

O documentário exibido pela TV Manchete em 1990, e reprisado pelo Canal Brasil em 2007, sobre o Surfe Ferroviário apresenta depoimentos e fornece subsídios para que possamos ampliar nosso debate, para que possamos fugir do senso comum de ver estas atitudes apenas como vandalismo e ver, a fundo, o que de fato se passa na cabeça de um jovem que desafia a morte de forma tão arriscada.

O documentário se encontra dividido em três partes no Youtube, e disponibilizo aqui a primeira parte. O trabalho é muito bem feito, e pelos depoimentos de jovens surfistas podemos perceber que não se trata apenas de uma diversão, há algo mais por trás destas atitudes.

Assista e analise. Mais que isso, assista e debata, questione.

sábado, 23 de outubro de 2010

Queda Livre

O Alter. O Alien. O Idem. Quem é esse OUTRO em quem busco refúgio?

No filme "Alice no País das Maravilhas", de Tim Burton (2010), percebemos, em alguns momentos, quem é esse OUTRO de quem tanto falamos. Seria este um amor? Seria um objeto, alguém? O que, ou quem seria o OUTRO?


Alice busca em um lugar seu refúgio, foge do desamparo de forma a romper com obrigações sociais que não fazem, muitas das vezes, muito sentido. O outro neste caso é o país das maravilhas, que se apresenta atrás de uma porta pela qual ela nunca imaginaria passar.

O outro aqui assume diversas formas, e se apresenta ao sujeito de forma fantástica e encantadora.

Neste contexto, podemos situar, por exemplo, as drogas.

Por que a sociedade insiste em combater as drogas? Por que a sociedade insiste em combater um "remédio" para os próprios males que ela mesma criou? Não queremos aqui, fazer apologia à drogas, queremos apenas ressaltar o quão importante é a discussão que se apresenta no cenário atual, onde o uso de drogas é reprimido, em detrimento da organização do bem estar da sociedade.

A fuga do horror do desamparo se dá de diversas formas, como já tivemos a oportunidade de discorrer, uma delas se apresenta na forma das drogas, estas que proporcionam a seus usuários momentos de fuga da realidade, porém, ao mesmo tempo em que proporciona essa fuga, acaba gerando mal estar ao sujeito e á sociedade de modo geral.

Aqui entramos nas noções de risco, onde o sujeito busca, através de atitudes ilegais a fuga a qualquer preço da realidade que vive.

Tendo em vista as ideias apresentadas ao mundo todo de que drogas fazem mal, respondemos às perguntas anteriormente feitas de forma simples e objetiva:
A sociedade insiste em combater as drogas pois estes remédio para fugir da realidade atual já se tornou mais um dos problemas gerados pelas sociedades atuais. A ditadura de regras e normas que impõem ao sujeito formas de ser para ser aceito em grupo levou à busca por essa fuga, através das drogas. A partir dai, a "ditadura dos paradoxos" se viu perdida em meio a indivíduos que não mais obedeciam às suas regras, e ao mesmo tempo, obedeciam tanto que buscaram nesses elementos (drogas), refúgio e amparo para ir contra essa ditadura.
Tratamos como droga aqui, não somente drogas já conhecidas, legais ou ilegais. Abordamos como drogas aqui, toda e qualquer forma de vício e "remédio" para fugir do desamparo, podendo considerarmos o trabalho, em alguns casos, jogos de azar, entre muitos outros elementos que levam o indivíduo a fugir do horror do desamparo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Masoquismo

"É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade"

Eu, etiqueta - Carlos Drummond de Andrade

O mundo contemporâneo, nos trouxe, não apenas questões sociais, como a necessidade de participação em grupos, através das nossas escolhas, mas, através disso, trouxe graves consequências ao ser humano. Com o decorrer do tempo, pode-se perceber um movimento muito grande contra a solidão.

O fato de estar sozinho, se achar isolado do mundo, foi sendo evitado cada vez mais, por todo indivíduo. A necessidade de ser acolhido por um grupo de iguais se tornou tão forte que o medo do desamparo ficou ainda mais evidente

Em Birman (2006) temos que
"o masoquismo seria a forma privilegiada de ser da subjetividade, que se protege dessa maneira triste de um suposto malefício maior produzido pela modernidade, qual seja, o desamparo. [...] para se protegerem do horror do desamparo, as individualidades se valem do masoquismo como forma primordial de subjetivação".
Analisando-se por esse viés, as noções impostas pela e para a contenporaneidade, percebemos claramente que evitar o desamparo é, não somente uma necessidade das sociedades atuais, o cerne que está por trás da experiência masoquista.

"Se você gritasse,
se você gemesse
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!"

E agora, José - Carlos Drummond de Andrade

A fuga do horror do desamparo se dá de diversas maneiras, porém, é pelo masoquismo que essa busca por outros mundos, que não o do desamparo se torna evidente, já que através do masoquismo "o sujeito se submete ao outro de maneira servil, seja de forma voluntária ou involuntária, pouco importa" (Birman, 2006), para concretizar a fuga do desamparo através de um OUTRO, que cuida e ampara, não o deixando só diante da sociedade, enquanto o sujeito se entrega de corpo e, muitas vezes, alma a esse OUTRO que lhe dá abrigo.

Diante destes argumentos, o que podemos interrogar é como esse outro se beneficia deste sentimento de desamparo do sujeito que se entrega de maneira servil e, mais além, quem é esse OUTRO em quem o sujeito busca refúgio diante do desamparo.

Eu, etiqueta - Carlos Drummond de Andrade
Por Paulo Autran

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Paradoxos

É como viver em um mundo onde sempre se deve escolher algo.

De fato, a contemporaneidade nada mais é do que um tempo onde todo indivíduo tem à sua volta, milhares e milhares de alternativas, e ao mesmo tempo não tem nenhuma.

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo."

Traduzir-se, Ferreira Gullar.

O poema Traduzir-se, de Ferreira Gullar, representa claramente a situação em que nos encontramos na sociedade atual. O mundo hoje já não é mais o mesmo de 10 anos atrás. Tudo muda rapidamente, e quase não percebemos as mudanças que nos são impostas.

O mundo contemporâneo em que vivemos dita regras e faz com que nós as obedeçamos sem questionar, sem interrogar e, até mesmo, sem perceber em que momento, por quem e como são criadas e difundidas estas regras.

Ao mesmo tempo em que seguimos estas regras, inconscientemente, estamos seguindo regras para que possamos ser aceitos em um grupo que exige que você seja isso, seja aquilo, vista isso, vista aquilo, entre outras questões e adjetivos que são exigidos por grupos e mais grupos, para que possamos fazer parte destes.

Estamos em mundo paradoxal, e ai entramos no assunto deste post.

Quero fazer parte de um grupo. Mas quero fazer o que eu quiser.
Devo vestir Empório Armani para ser aceito. Mas quero vestir o que quiser para eu me aceitar.
Quero ser aceito por todos. Mas quero ser aceito, antes de mais nada, por mim.

Hoje, se dissermos que SIM, e o mundo nos diz que NÃO, somos obrigados a aceitar e nos tornarmos submissos para não sermos excluídos da sociedade. Queremos a calmaria de estar só por alguns instantes, mas não aceitamos a exclusão do grupo ao qual fazemos parte.

Somos quem queremos ser? Somos quem devemos ser? Ou somos quem os outros querem que sejamos?
Somos tudo isso: somo quem queremos ser, mas ao mesmo tempo, somos quem devemos ser para sermos aceitos. E somos, acima de tudo, o que dizem que nós somos.

domingo, 17 de outubro de 2010

Portfólio de PETC

Este blog é uma atividade da disciplina de Psicologia, Educação e Temas contemporâneos, ministrada pela Profa. Dra. Patrícia Junqueira Grandino, no 2º Semestre do Ciclo Básico da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH | USP).

Aqui, serão disponibilizados resumos dos textos discutidos em aula, discussões em grupo apresentando conceitos e relacionando-os à realidade da sociedade atual. Apresentaremos, também, análises extradisciplinares, envolvendo as disciplinas desenvolvidas no Ciclo Básico e também com as disciplinas específicas de cada curso.

Visamos, desse modo, apresentar discussões que nos façam pensar e refletir sobre conflitos atuais dentro da temática proposta.

Tomamos a liberdade de nomear o blog com o título do livro de Otavio Frias Filho, "Queda Livre: Ensaios de Risco", editado pela Companhia das Letras, pois trata-se de um texto que nos apresenta conteúdos que se relacionam muito com a temática proposta na disciplina.

Esperamos, com este blog, contribuir e ampliar o conhecimento sobre assuntos ligados às temáticas apresentadas, como noções de risco, atitudes ordálicas, drogas, violência, sexo, entre outros assuntos discutidos em aula e no nosso dia-a-dia.